Hoje é:23 de abril de 2026

A cerâmica vermelha que desafia o tempo

Como as telhas de Marselha deram vida à tradição ceramista de Itu

Por Manu Souza | Imagens: Assessoria/Fábrica São Pedro

O restauro da Fábrica São Pedro, atual sede do Museu FAMA em Itu (SP), está trazendo à tona detalhes fascinantes sobre como a arquitetura industrial europeia moldou a identidade da região. O foco atual da obra é o telhado dos oito galpões do complexo de 4.526 m², um marco do início do século 20 que guarda a certidão de nascimento do polo ceramista ituano.

Segundo o museólogo Emerson Castilho, o telhado da fábrica é 100% francês, com telhas e tijolos importados diretamente de Marselha pelo arquiteto Ramos de Azevedo. O material era de tão bom que os ceramistas locais da época — aproveitando a excelência da argila da região — passaram a reproduzir as peças utilizando moldes negativos das originais.

Essa “pirataria” de patentes, como descreve Castilho, foi o motor para o desenvolvimento do robusto ciclo ceramista de Itu. O que começou como uma cópia das técnicas francesas transformou-se na base econômica e na identidade técnica da produção de produtos de argila vermelha que sucedeu os ciclos do café e do açúcar.

A preservação do material centenário segue um protocolo rigoroso conduzido pela equipe da BOA SP Arquitetura:

Limpeza e imersão: as telhas passam por banhos de 60 minutos em solução de limpeza para remover décadas de sujeiras.

Escovação manual: cada peça é tratada individualmente para preservar a integridade da argila.

Reaproveitamento máximo: nenhuma telha original quebrou durante a remoção no “Anexo Um”, que servirá como banco de reposição para os demais galpões.

Reconhecida pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT) como Patrimônio Arquitetônico Industrial, a Fábrica São Pedro se prepara para abrigar, além do acervo do Museu FAMA, parte da coleção do museu “Asas de Um Sonho”.

A obra, viabilizada pelo edital Fomento Cult SP (PNAB), tem previsão de 12 meses e reafirma a importância de Itu não apenas como berço histórico, mas como referência em tecnologia e tradição ceramista no Brasil.

A preservação dessas telhas de Marselha destaca a durabilidade do material cerâmico, que se mantém funcional e esteticamente preservado após mais de um século de exposição às intempéries.

Manu Souza é gestora de comunicação e editora da Revista da Anicer.

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