Por Manu Souza
O empreendedorismo feminino ganha força em mercados tradicionalmente masculinos. Conversamos com Margarete Coelho, Diretora de Administração e Finanças do Sebrae Nacional e uma das principais vozes na defesa da força feminina no país, sobre políticas de apoio às mulheres de negócios e como o setor cerâmico pode acelerar essa transformação produtiva.
Embora os dados gerais do setor ainda apontem para uma maioria de líderes homens, as mulheres que assumem a governança de indústrias cerâmicas no Brasil quebram estereótipos diariamente. Seja na sucessão familiar de fábricas tradicionais ou no desenvolvimento de novas frentes, focadas em automação e eficiência energética, elas mostram que a sensibilidade técnica e o rigor administrativo caminham juntos. Aqui, Margarete Coelho compartilha estratégias para impulsionar e dar visibilidade às mulheres e a seus empreendimentos.
Revista da Anicer: Em suas palestras, você sempre deixa claro que negócio não tem gênero. Qual é o principal mito que essea máxima busca quebrar e qual mensagem central você deseja passar?
Margarete Coelho: O principal mito que esse tema busca quebrar é a ideia de que alguns setores, atividades ou posições de liderança seriam naturalmente masculinos ou femininos. Não são. O que existe, muitas vezes, são barreiras históricas, culturais e institucionais que afastaram as mulheres de determinados espaços, mesmo quando elas sempre estiveram presentes no trabalho, na gestão da família, no cuidado com o negócio e na tomada de decisões. Quando digo que negócio não tem gênero, estou afirmando que competência, capacidade de inovar, visão estratégica, coragem para investir e disposição para transformar não pertencem a um gênero. Pertencem às pessoas. E o Brasil precisa olhar para isso com mais seriedade, porque desperdiçar o talento das mulheres é desperdiçar produtividade, competitividade e desenvolvimento. A mensagem central da palestra é esta: incluir mulheres na liderança dos negócios não é concessão, não é pauta lateral e não é apenas uma questão de justiça, embora também seja. É uma estratégia de fortalecimento das empresas, dos setores produtivos e da economia brasileira. No caso da cerâmica vermelha, um setor tão conectado à construção civil, à indústria, ao território e às famílias empreendedoras, essa reflexão é ainda mais importante.
Incluir mulheres na liderança dos negócios não é concessão, não é pauta lateral e não é apenas uma questão de justiça, embora também seja. É uma estratégia de fortalecimento das empresas, dos setores produtivos e da economia brasileira
RA: O setor de cerâmica vermelha ainda possui uma liderança majoritariamente masculina, apesar de algumas líderes femininas se destacarem. Em sua opinião, como a presença feminina pode acelerar a inovação e a competitividade nessas fábricas?
MC: A presença feminina pode acelerar a inovação porque amplia o repertório de decisão dentro das empresas. Quando uma fábrica é conduzida apenas por pessoas com trajetórias muito semelhantes, há uma tendência natural de repetir soluções conhecidas. Quando mulheres passam a ocupar espaços de gestão, governança e liderança, novas perguntas entram na mesa. No setor de cerâmica vermelha, inovação não se limita à tecnologia de ponta. Ela também está na gestão do forno, no controle de qualidade, no uso mais racional da energia, na qualificação da mão de obra, na melhoria da produtividade, na profissionalização da administração e na capacidade de enxergar novos mercados. As mulheres têm contribuído fortemente nesses campos porque, em muitos casos, trazem uma visão integrada do negócio, combinando cuidado com as pessoas, atenção aos custos e compromisso com resultados. Além disso, a entrada de mulheres em espaços de liderança ajuda a renovar a cultura empresarial. Isso não significa substituir uma liderança por outra, mas somar competências. Empresas mais diversas tendem a decidir melhor, perceber riscos com mais antecedência e responder com mais rapidez às mudanças do mercado. Em um setor tradicional e ao mesmo tempo tão estratégico para o país, essa capacidade de renovação é um diferencial competitivo.
RA: Sob a sua liderança na diretoria do Sebrae Nacional, quais têm sido os principais avanços e programas estruturados para impulsionar e dar visibilidade às mulheres que comandam pequenos negócios no país? De que forma o Sebrae tem atuado para reduzir as barreiras de crédito e de capacitação técnica para elas?
MC: O Sebrae tem tratado o empreendedorismo feminino como uma agenda estratégica de desenvolvimento do país. As mulheres já empreendem, já sustentam famílias, já movimentam territórios e já lideram negócios em todos os setores. O desafio é fazer com que elas tenham acesso às mesmas condições de crescimento, crédito, mercado, tecnologia e formação que historicamente foram mais acessíveis aos homens. Nos últimos anos, fortalecemos iniciativas voltadas à capacitação, à visibilidade e à conexão de mulheres empreendedoras, com destaque para programas como o Sebrae Delas, que atua no desenvolvimento de competências empreendedoras, no fortalecimento da autoconfiança, na melhoria da gestão e na criação de redes de apoio. Também avançamos na estruturação de uma agenda institucional dedicada ao empreendedorismo feminino, à diversidade e à inclusão, porque entendemos que não basta ter ações isoladas; é preciso ter diretriz, continuidade e capacidade de entrega. Outro ponto importante é o esforço para ampliar o atendimento às mulheres empreendedoras. O Sebrae tem buscado chegar a mais mulheres, em diferentes territórios, com soluções de gestão, orientação para acesso a crédito, educação financeira, formalização, inovação e acesso a mercados. Sabemos que muitas mulheres enfrentam jornadas mais sobrecarregadas, têm menos garantias patrimoniais, lidam com redes de relacionamento mais restritas e, muitas vezes, começam a empreender por necessidade. Por isso, o atendimento precisa reconhecer essas barreiras concretas. Em relação ao crédito, o papel do Sebrae é preparar melhor a empreendedora para dialogar com o sistema financeiro, organizar seus números, compreender sua necessidade de capital, planejar o uso dos recursos e reduzir o risco de endividamento inadequado. Crédito é importante, mas crédito sem orientação pode virar problema. Por isso, nossa atuação combina capacitação, consultoria, educação financeira e articulação com parceiros, sempre com o objetivo de transformar acesso em crescimento sustentável.
Para os pequenos e médios negócios, sustentabilidade é eficiência, redução de desperdício, melhoria de processos, cuidado com a equipe, uso inteligente de recursos, respeito ao território e capacidade de permanecer competitivo
RA: Muitas empresas cerâmicas no Brasil são empresas familiares que passam por processos de transição de comando. Na sua visão, qual é o papel das jovens empresárias e herdeiras que estão assumindo a governança dessas indústrias hoje, e como o Sebrae apoia essa preparação?
MC: As jovens empresárias e herdeiras têm um papel decisivo na continuidade e na modernização das empresas familiares. Elas carregam uma responsabilidade muito grande, que é respeitar a história construída por pais, mães, avós e fundadores, sem deixar de preparar a empresa para um ambiente de negócios completamente diferente. Hoje, uma indústria precisa lidar com tecnologia, sustentabilidade, gestão de pessoas, produtividade, governança, acesso a crédito, sucessão, mercado digital e exigências cada vez maiores de clientes e fornecedores. Muitas dessas mulheres cresceram dentro das empresas, conhecem o chão de fábrica, conhecem os trabalhadores, conhecem os clientes e sabem o valor afetivo e econômico daquele negócio para a família e para a comunidade. Ao mesmo tempo, chegam com novas formações, novas referências e uma abertura maior para inovação. Essa combinação entre memória e futuro é muito poderosa. O Sebrae apoia esse processo oferecendo capacitação em gestão, consultorias, programas de liderança, orientação para governança, planejamento sucessório, inovação e melhoria de processos. Em empresas familiares, a sucessão não pode ser tratada apenas como troca de comando. Ela precisa ser planejada, dialogada e profissionalizada. Quando uma jovem empresária assume uma indústria familiar preparada, com instrumentos de gestão e clareza estratégica, ela preserva um legado e cria condições para que aquele negócio continue relevante pelas próximas gerações.
RA: Pesquisas apontam que a liderança feminina costuma trazer um olhar muito atento à sustentabilidade (ESG), gestão humanizada e eficiência de processos — pilares essenciais para a cerâmica vermelha atual. Como o Sebrae enxerga esse diferencial competitivo das mulheres no mercado de pequenos e médios negócios?
MC: O Sebrae enxerga esse diferencial de forma muito concreta. A liderança feminina, muitas vezes, traz uma capacidade de olhar para o negócio de maneira sistêmica. Isso significa enxergar resultado financeiro, mas também enxergar pessoas, território, reputação, impacto ambiental, relação com fornecedores, qualidade do produto e permanência da empresa no longo prazo. Essa visão dialoga diretamente com a agenda ESG. Sustentabilidade não pode ser vista apenas como exigência externa ou como linguagem de grandes empresas. Para os pequenos e médios negócios, sustentabilidade é eficiência, redução de desperdício, melhoria de processos, cuidado com a equipe, uso inteligente de recursos, respeito ao território e capacidade de permanecer competitivo. Na cerâmica vermelha, isso é essencial, porque estamos falando de um setor que utiliza recursos naturais, consome energia, gera empregos locais e participa de uma cadeia produtiva estratégica para o desenvolvimento urbano e habitacional. É claro que não se trata de dizer que toda mulher lidera da mesma forma. As mulheres são diversas, têm trajetórias diferentes e estilos diferentes de gestão. Mas é inegável que, pela experiência histórica que muitas acumularam na conciliação entre trabalho, família, comunidade e negócio, elas frequentemente desenvolvem habilidades muito importantes para a gestão contemporânea: escuta, organização, resiliência, visão de longo prazo e capacidade de construir soluções coletivas. No mercado atual, isso é vantagem competitiva. Empresas que cuidam melhor de seus processos, de suas pessoas e de sua relação com o ambiente tendem a ser mais eficientes, mais confiáveis e mais preparadas para acessar novos mercados. A agenda ESG, quando bem compreendida, não é custo. É estratégia.
Quando digo que negócio não tem gênero, estou afirmando que competência, capacidade de inovar, visão estratégica, coragem para investir e disposição para transformar não pertencem a um gênero

Deixe um comentário